ColunistasCOLUNISTAS

Pedro Fagundes de Borba

Autor: Pedro Fagundes de Borba

Guerra Guaranítica

21/5/2023 - Várzea Paulista - SP

    Durante o processo de colonização, que desenhou e criou o Brasil, os fatores de dominação e extermínio de nativos ocorreram. De um lado, houve fortes confrontos entre índios e colonizadores portugueses. Que, buscando a dominação da terra, os viam como obstáculos diretos, buscando tirá-los. Fosse pelo extermínio, fosse pela coerção dos mesmos a sociedade que estava sendo criada. Uma das formas de coerção postas foi à catequização destes índios através dos jesuítas. Um processo que ocorreu parte pela ação dos portugueses, parte pela ação dos espanhóis.

      No caso dos espanhóis, com a criação de missões jesuíticas espanholas, estes tiveram algumas atuações bastante fortes em algumas regiões brasileiras. Que tomaram uma forma e uma maneira própria, muitas vezes mesmo tendo oposição as medidas coloniais. Para ver isto de jeito mais completo, devo falar um pouco sobre a relação entre colonizadores e índios, o território formado e, especialmente, a cultura, realidade e povo que surge a partir disto. Pois com isso será possível ver e pensar melhor as situações colocadas nestes momentos e contextos, bem como o que surgia.

     O primeiro ponto é dizer que, antes da colonização, o Brasil não existia. Era um território já existente, habitado por diversos povos indígenas, mas que não formavam uma unidade territorial como o Brasil, estando diversos e espalhados. Viviam em cantos diferentes do que hoje são o Brasil, muitos deles, provavelmente, sem comunicação uns com os outros, talvez sem nem souber que o outro existia. Por exemplo, os Carijós do Rio Grande do Sul não conheciam os Caetés de Alagoas. E isto criava um território disperso e com diversos povos, sem as características culturais e políticas surgidas a partir da colonização.       

      Com a colonização, há esta unificação territorial e a criação do país. Que, desde 1500, passará pelos mais diversos processos políticos e de organização, ora comandado por Portugal. Desde 1822 é um país independente, mas sempre mirando a Europa e esquecendo seus nativos. Esquecendo junto, essa forma de ser. Porém, ainda na época da colonização, um evento ficou marcado no noroeste do Rio Grande do Sul, ainda hoje muito presente na cultura da região, a Guerra Guaranítica, feita pelos Sete Povos das Missões contra a colonização portuguesa e espanhola.

     Naquele momento, 1750, a região pertencia à Espanha, que tinha montado missões jesuíticas, para converter os índios guaranis e garantir sua presença. Enquanto isto, Portugal era dono da Colônia de Sacramento, atual Uruguai. Naquele ano, através do Tratado de Madrid, os países acordaram em trocar as regiões um para o outro, Portugal ficando com o RS, Espanha com o Uruguai. Os dois países acordaram assim, porém os guaranis dos Sete Povos e os padres Jesuítas não concordaram. Pois isso significaria a transferência das Missões para o outro lado do rio Uruguai, onde hoje é a Argentina, território colonial espanhol.

     Não aceitaram deixar suas terras, especialmente por imposição dos colonizadores. Surgiu o famoso lema “Esta terra tem dono”. Jesuítas passam então a armar os índios para defender as missões, mantê-las onde estão garantindo aquele território e cultura. O principal líder índio será Sepé Tiaraju, que lutará contra os dois exércitos coloniais, sendo várias vezes aprisionadas em fortes. Ao final, em pouco tempo, Portugal e Espanha derrotarão os exércitos indígenas. Muito pela disparidade, dois dos exércitos coloniais mais fortes da época contra índios e padres armados com armas de fogo velhas.

        Este é um episódio paradigmático da história brasileira por mostrar tanto uma revolta já na era colonial quanto o desenho do Brasil. Aquele momento tendo território disputado por Portugal e Espanha, a cultura real existente, jesuítica guarani, se revolta contra tais medidas, buscando manter seu território e cultura. Ainda que já reflexo da colonização, haja vista a presença dos jesuítas, não deixa de ser uma revolta legítima de um povo contra o colonizador, que quer o controle sobre aquela área e terra, que tem dono.

       A Guerra Guaranítica mostrou esta fase e realidade brasileira, uma realidade viva e completa, que reage contra os colonizadores. Este entrelaçamento de jesuítas e guaranis segue sendo um exemplo de uma das poucas vezes que há uma forte luta contra colonizadores, antes mesmo dos países americanos começarem suas independências. Foi uma fagulha para a independência na América, que se consolidaria no século seguinte. Infelizmente, os índios continuaram e continuam não sendo ouvidos. Ainda temos os territórios controlados por descendentes de colonizadores, este processo que criou o Brasil e os demais países americanos. As marcas coloniais seguem, assim como de suas revoltas.        

 
Compartilhe no Whatsapp