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Pedro Fagundes de Borba

Autor: Pedro Fagundes de Borba

Brasil real

15/8/2021 - Várzea Paulista - SP

    A noção de Brasil oficial e Brasil real surgem com Machado de Assis, que faz esta observação a partir da realidade brasileira no século XIX. Sendo um país subdesenvolvido, possuía como o resto da América Latina uma desigualdade social imensa, existente no território nacional inteiro, mas focada principalmente no interior do país. O oficial seria litorâneo e mais rico, refletindo pensamentos distantes de sua realidade. O real seria pobre, sertanejo, afastado dos centros e vivendo de maneira real crua, sendo o Brasil com suas características.    

      Com sua complexa e densa visão, tanto da realidade brasileira quanto do mundo, Machado falou sobre um dos mais graves e dilacerantes problemas nacionais, que até hoje persiste. Ainda em sua época, foi observável um dos maiores fenômenos do Brasil real, que foi Antônio Conselheiro e o Arraial de Canudos, o líder messiânico tendo atraído sua base a partir das condições dos nordestinos, fazendo com que negros, índios e brancos pobres o seguisse, buscando uma forma melhor de sociedade.

    Tal fato e eventos foram retratados por Euclides da Cunha em “Os sertões”, que aprofundou as ideias dos dois Brasis, vendo Conselheiro como um dos fenômenos de expressão do Brasil real. Ainda em termos literários, a última, talvez maior, expressão artística do Brasil real foi o movimento armorial de Ariano Suassuna, que buscava criar uma arte erudita a partir das raízes populares da cultura brasileira, ou seja, as expressões do Brasil real, algo que o autor já buscava em suas peças e romances.

     A ideia dos dois Brasis se relaciona também com diversos outros fatores, principalmente políticos e sociológicos. Tendo o subdesenvolvimento como uma de suas marcas mais fortes, a questão dos ricos e pobres existe no litoral e no sertão, ainda que de maneiras e proporções diferentes. Porém, é mais acentuada no sertão, sendo região também marcada por isolamento, por menor presença de urbanidade, além de a pobreza ser maior neste espaço, criando lugares com algumas peculiaridades. Não se trata de colocar noção de atraso propriamente, pois está junto e integrado socialmente com o Brasil oficial.

     Fazem ambos parte da realidade brasileira, que contém suas idiossincrasias, suas formas, seu contexto e sua estrutura social. O Brasil real e o oficial podem ser de um jeito, lados de um mesmo lugar, duas maneiras, ou uma dicotomia com acertos e erros em sua concepção. Se o litoral e o interior refletem melhor jeitos desta visão em um contexto mais amplo, existe real no litoral e oficial no interior.

     O tema é bastante caro para os autores brasileiros, por dizer muito respeito com que trabalham ao que representam. Falar do Brasil é reconhecer sua realidade e suas particularidades, também ver as fortes divisões que podem existir em meios e espaços mais acadêmicos com outros, populares e em um contato mais forte com realidade. A quem analise, poderá ver vários espaços e formas relacionados às maneiras dos dois Brasis, pois é uma divisão nacional da realidade, consequência dela.

       Desta forma, é importante então de se falar que não existe uma separação completa e final entre os dois, sendo essencialmente uma maneira de descrever uma divisão que se aparenta e parece, quando existe alguma interação entre ambos, no sentido de que um influencia o outro, embora não sejam rompidas as desigualdades sociais. Cabe então aos artistas reconhecerem o Brasil profundamente real, em suas características, formas e realidades, para então fazer sua arte, relacionar com seu jeito, para se atingir o Brasil e o mundo nestes aspectos, fazendo tais concepções.          

     

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