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Pedro Fagundes de Borba

Autor: Pedro Fagundes de Borba

Vazio nos reinos

19/7/2020 - Várzea Paulista - SP

    Olhando para sua época e os homens que nela vivem, T.S Eliot compõe seu poema “Os homens ocos” sobre os homens ocos, a condição que encontra nos seus contemporâneos em 1925. Eram uns nos outros amparados; fôrmas sem forma, paralisados, os gestos sem vigor, as vozes quietas e inexpressas como pés de ratos sobre cacos em suas adegas evaporadas. Aqueles que atravessassem para o reino da morte os lembrariam apenas como os homens ocos, homens empalhados. E não como violentas almas danadas.

   Pelo lado do reino da morte, os olhos como a lâmina do sol nos ossos de uma coluna, o eu lírico temendo encontrar estes em sonho; árvore brandindo os ramos e vozes no frêmito que canta. Que ele não se aproxime demais do reino da morte, que possa trajar ainda aqueles tácitos disfarces, se comportando no campo como o vento se comporta, nem mais um passo, não o encontro derradeiro no reino crepuscular.

    Lá onde é terra do cacto, onde imagens de pedra eretas recebem a súplica da mão de um morto, com o lampejo de uma estrela agonizante, é o outro reino da morte. Despertam sozinhos, na hora em que estavam, os lábios que beijariam, trêmulos de ternura, rezavam a pedras quebradas.

    Os olhos não estavam lá, não brilhavam naquele vale desvalido, mandíbula em ruínas de seus reinos Perdidos. Juntos tateavam naquele sítio de encontros, fala esquiva, reunidos na praia do túrgido rio. Nada para ver, a não ser que os olhos reaparecessem como a estrela perpétua do reino da morte, a esperança dos homens vazios.

     Ali rondavam a figueira brava, as cinco em ponto da madrugada. Tombava a sombra, entre a ideia, a realidade, a ação e o movimento, teu era o reino; também entre a concepção e a criação, a emoção e a reação, vida é muito longa; e entre o desejo, o espasmo, existência, essência e descendência, teu é o reino. Teu é, a vida é, teu é o.

     Assim expira o mundo, não com explosão, mas com um suspiro.

     Falando sobre seus homens de sua época, transcendendo o mundo material comprovadamente conhecido por nós, Eliot consegue manter críticas perenes a nós enquanto seres materiais e como resultado parte do cosmo metafísico, mostrando o tamanho e as dimensões do problema, caracterizando plenamente. Com sua complexa interpretação do todo, o que compõe aquilo visto, conhecido, reconhecido, foca em um problema, mostrando sua conexão e características junto com aquilo que está além, algumas das características mais profundas. Os homens ocos, no complexo reino da existência, agem ocamente, criando um universo vazio.

    

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