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ColunistasPedro Fagundes de Borba

Dentro da cozinha

31/5/2020 - Várzea Paulista - SP

   Eventos cotidianos são temas caros a alguns artistas, principalmente para cronistas. Parecem carregar dentro de si uma demonstração viva da vida como ela é, com todos os seus detalhes completos, abarcando uma amostra daquilo que viver é realmente, como acontece. Dependendo dos conhecimentos e interesses de quem assim escreve, pode criar cenas extremamente complexas, trazendo aspectos culturais, políticos e pessoais em formas completas, como estes efetivamente se manifestam. Um dos grandes cronistas brasileiros, também um cômico, Luís Fernando Veríssimo, fez vários retratos destes momentos, sempre capazes de gerar identificação com algum brasileiro que o lê. O exemplo será “Povo”, uma de suas “Comédias da vida privada”.    

Chamou Geneci para conversar na cozinha, o patrão não podia ouvir. Geneci quis saber se era o copo. Não era, respondeu. Quis saber se ia sair na escola. Sim, mas se quisesse que viesse na terça. O que queria era sair na escola, respondeu. Não entendeu. Ou fazer alguma outra coisa. Não aguentava ficar fora no carnaval. Quis saber se não tinham lá uma ala das patroas, qualquer coisa. Se tivesse falado antes. Sabia. Mas agora era tarde para a fantasia e tudo o mais. Mas improvisava uma baiana, uma deusa grega, que era só um lençol.

  Não sabia. Saía na bateria, respondeu. Mas não era fácil. Sabia, mas queria participar. E até sambava direitinho. Nunca a tinha visto sambar?! Disse tudo bem. Também era povo, disse à Geneci. Quando via uma escola passar, ficava toda arrepiada. Ela podia assistir, afirmou. Mas queria participar, respondeu. Por que só eles podiam ser povo? Ela também podia, se precisasse pagar ela pagava.

  Podia costurar ajudar a organizar o pessoal. Ajudar no transporte, o Alfa Romeo estava ali. Tinha a Caravan, se o patrão não desse falta. Emoção de participar que lhe interessava; poder dizer “a minha escola”. As amigas morreriam de inveja. Algumas torceriam o nariz, mas ela não era assim. Era legal, sempre a tratara de igual para igual, pediu que respondesse. Tratara sim, respondeu.

  Lembrou então que a ama de leite de sua mãe era preta. Confirmou também. Era um favor que faria. Em nome de sua velha amizade. Bem, se estava mesmo disposta. Faria qualquer coisa, disse para Geneci.

  Quis saber mais sobre o qualquer coisa. Era que o Rudinei e a Fátima Araci não tinham com quem ficar. Quis saber quem eram elas. Suas crianças, respondeu. Se pudesse ficar com elas enquanto desfilava, disse Geneci. Disse que ia pensar, depois viam. Disse que podia trazê-las e... Já disse que ia pensar, e que fosse servir o cafezinho na sala.

   A cena mostra o cômico nacional. Um interesse cultural mútuo; visto de formas diferentes. Ao redor dele, as condições sociais delimitando, tanto o que cada uma faz quanto como enxergam, o que uma ou outra quer. Como que são em muitos sentidos. Geneci e a patroa têm personalidades dentro deste espectro, sendo por eles influenciadas. Cruzam os caminhos, indo aonde elas querem de acordo com os privilégios.

  

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