ColunistasCOLUNISTAS

Pedro Fagundes de Borba

Autor: Pedro Fagundes de Borba

Os ex-namorados

9/2/2020 - Várzea Paulista - SP

    Foi recebida depois da ladeira, um lugar com poucas casas em meio a terrenos baldios e ruas sem calçamento. Em um ponto, só o que se ouvia eram crianças brincando de roda. Encontrou Ricardo encostado a uma árvore, onde a chamou de querida Raquel. Destacou o lugar escolhido para se encontrarem. Debochou da elegância e de como não se vestia assim na época em que saíam. Viu um cemitério. Ele explicou que estava abandonado. 

    Contou que toda sua família estava enterrada ali; a convidou para entrar. Iam ver o por do sol mais lindo do mundo. Reclamou da ideia, ele havia implorado um último encontro, feito ela ir até aquela buraqueira para ver o por do sol em um cemitério. Contou que estava morando em uma pensão, tendo ficado mais pobre ainda, a dona era uma medusa. Continuaram conversando, ele contando dores, ela tentando ajudar, contornando, mas ele vendo problemas nas opções. Achou até romântico o cenário. 

    Disse então a Ricardo que ele era muito ciumento, que sabia que tinha ela tido seus casos, se pegasse eles ali então que a vida não seria consertada. Respondeu dizendo que escolheu ali porque não queria que ela se arriscasse. Ninguém iria saber que esteve ali. Continuou com medo; reafirmou que não viria ninguém. 

    Andaram pela alameda coberta de sol, tudo coberto de mato. Deixou ser guiada como uma criança, às vezes mostrando curiosidades pelo túmulos. Achou imenso, miserável e deprimente, querendo ir embora. Sugeriu que olhasse um pouco para aquela tarde. Porque era deprimente? Não gostava do cemitério, respondeu. Ainda mais um cemitério pobre.

    Comentou se não ia dar um final de tarde para aquele escravo. Disse que faria, mas fez mal. Não queria se arriscar mais. Perguntou se ele era rico. Riquíssimo, respondeu. Ia levá-la numa viagem para o oriente. Seguiram naquele assunto, vez em quando falando sobre as lajes do cemitério. Queria ir embora. Estava cansada. 

     Provocou sobre se a boa vida a havia deixado preguiçosa. Indicou o caminho onde ficava o jazigo de sua família. Era lá que iam ver o por do sol. Comentou que trazia flores com a mãe e a priminha para o pai morto. Agora elas estavam mortas. Perguntou para confirmar. Respondeu que morrera quando completou quinze anos. Contou sobre a grande beleza dela. Quis saber se eles se amaram. Disse que foi amado, a única que lhe amou. Depois, que não tinha importância. Tragando mais um cigarro, Raquel disse que também o amou, e gostou. Ainda amava. Tinha percebido a diferença?

     Entraram em uma capelinha, desceram uma portinhola à direita do altar. Comentou a fascinação sobre aquele cemitério estar abandonado, um lugar onde as pontes com o outro mundo foram cortadas, a morte se isolou total. Ela olhou para a portinhola, que davam nas gavetas do fundo. Desceram, ele se aproximou de uma no centro da parede. Ficou mostrando retratos. Ela quis ir embora. Provocou se estava com medo. Estava era com frio. Que saíssem dali. Indicou a lápide da prima para Raquel, acendendo um fósforo, era um lugar mais escuro. Deu, disse que dava para ver muito bem. Foi para o lado. 

     Percebeu que tinha morrido no século XIX, não podendo ter sido sua namorada. Ia chamá-lo de mentiroso quando um baque serrou a palavra no meio. Viu a portinhola fechada, com Ricardo olhando ao topo. Quando chegou perto, ele veio, girou a chave, tirou, saltou para trás. Mandou abrir.  Ele disse que uma réstia de sol entrava por uma frincha da porta e depois ia desaparecendo. Ela veria o por do sol mais lindo de todos. Continuou gritando. Chegou, Ricardo, ainda, a abrir os braços na frente da grade e dizer "boa noite, meu anjo". Saiu, ouvindo ainda os gritos altos se multiplicando. Saindo do cemitério, ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria nada agora. Desceu a ladeira, fumando cigarro. Ao longe, crianças brincavam de roda. 

     O conto de Lygia Fagundes Telles "Venha ver o por do sol", resumido acima, é das obras que evidenciam talento por vários caminhos. Embora não seja tão marcante ou mesmo inovadora, a narrativa é excelente por contar o que conta da maneira que conta. Falando com diversas questões da mente humana, sobretudo masculina, que se manifestam de diversas maneiras, aliada a uma linguagem que dentro de uma simples eficaz narrativa, consegue passar pelo objeto das mais diversas formas, em toda a difusão que ele existe, cria uma história muito boa para entreter com questões humanas, imaginando uma forma macabra disto acontecer.

Compartilhe no Whatsapp