ColunistasCOLUNISTAS

Pedro Fagundes de Borba

Autor: Pedro Fagundes de Borba

Vou para o inferno

15/12/2019 - Várzea Paulista - SP

     O conto de Ramón Gomez de La Serna, "Pior que o inferno", mostra a decisão de um condenado sobre este assunto. Incluído na coletânea de Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo, "Antologia da literatura fantástica", faz sentido em estar na coletânea por falar desta situação onde algumas fantasias, e uma realidade, são misturadas, difícil saber suas composições, existindo profundamente. 

    O protagonista condenado não tem nome, apenas Deus é nomeado, o cristão. Ele havia sido enviado para milhares de séculos no purgatório, uma pena para aqueles que escapam da máxima. Aos que não são mortos, escapam da última, tem quase a mesma sentença de trinta anos. E Deus, aos perdoados do inferno, condena a toda a eternidade menos um dia, o dia mata por completo toda a eternidade, a alma estará velha e prostrada no dia em que a pena for cumprida. 

    Pensou nas folhas de almanaque, nos dias da semana, nos de primeiro de ano aguardando um primeiro de ano separado por tantos anos. Não conseguiu resistir e pediu ao Deus abusivamente cruel que o desterrasse para o inferno, onde não haveria nenhuma impaciência. Gritava que matasse a esperança, a esperança que pensa na data derradeira, muito distante. Foi enviado, onde encontrou alívio para seu desespero. 

    A realidade da vida está diretamente ligada a aspectos mais fantásticos seus. Qualquer coisa além dela se configura como fantástico; sobretudo aqueles ligados a aspectos profundos do ser humano, os vez em quando revelados ou percebidos pelos estados mais profundos que uma consciência pode atingir, sempre mostrados e espalhados de maneiras diversas pela vida. O destino daquele que, sabendo sua condenação pós-vida, repugnou em relação mesmo à pena máxima, a do inferno, pelas angústias que teria durante o tempo, sabendo que o dia a menos destruiria sua eternidade. Melhor viver completamente aquilo, se sabe melhor onde está e se sofre menos, mesmo sendo o lugar infernal. Os condenados vivem o que creem, concedido por Deus. 

    

Compartilhe no Whatsapp