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Pedro Fagundes de Borba

Autor: Pedro Fagundes de Borba

Conceição e Nogueira

11/8/2019 - Várzea Paulista - SP

    Desconheço até qual nível posso dizer se pessoas são previsíveis e identificáveis. Muitas vezes, fazem ações que induzem a ver algo, quando o ocorrido é, em verdade, algo sutil, mais profundo do que usualmente acontece. Por ter esta característica, ocorre em situação e contexto incomum, alimentando a ideia de que pode ser outra coisa. Pode mesmo. Mas a incerteza permeia todo o momento e o acontecimento, abrindo possibilidades não apenas para várias possibilidades daquilo que ocorreu bem como também quanto ao caráter de quem participou. O maior escritor brasileiro, Machado de Assis, foi mestre nisso. 

    O bruxo do Cosme Velho explorou muito bem esta característica em seu conto " Missa do galo", onde apresenta um caso perfeito de confusão entre personagens. O narrador e protagonista, Nogueira, saiu de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, estudar preparatórios. Ficou hospedado na casa do escrivão Meneses, que fora marido de uma de suas primas, agora casado com Conceição. O anfitrião ia toda semana ao teatro, eufemismo para se encontrar com uma senhora separada do cônjuge. Nogueira ficou, durante a época de natal, hospedado nesta casa. Na noite, Meneses foi ao teatro e Nogueira iria á missa do galo.Combinou com um vizinho de acordá-lo para irem juntos á meia-noite. Dona Inácia, mãe de Conceição que também morava na casa, lhe perguntou o que faria enquanto esperava. Falou que leria na sala. Sua leitura seria "Os três mosqueteiros", de Alexandre Dumas. Enquanto ainda estava lendo, Conceição apareceu na sala. Para Nogueira, tinha um ar de visão romântica, sendo alta e magra, não disparatada com o romance. Após muitos assuntos, idas e vindas, ficam inteiramente calados. Então, houve uma pancada na janela. O vizinho que não fora acordado por Nogueira, este perdera o horário, vinha chamar-lhe para a missa. Conceição diz para o jovem que vá e sobe as escadas. Durante a missa, sua figura não desaparece da mente de Nogueira. Mais de uma vez, se interpõe entre ele e o padre. No dia seguinte, nenhuma conversa, Conceição parece ter se tornado novamente o que era até então. Volta para Mangaratiba no ano bom. Por março, volta ao Rio de Janeiro. O escrivão havia morrido de apoplexia. Conceição estava morando no Engenho Novo. Casara com o escrevente juramentado do marido. Nogueira não a visitou. 

     Por não haver nenhum ato de consumação, fica-se difícil saber o que estava para acontecer entre os dois. Podia-se ter desde beijos e alguma eventual, torta e proibida relação sexual até um simples trocar de palavras a mais. A personalidade de ambos, complexa como a de qualquer indivíduo, está se manifestando, sem demonstrar grandes eventos físicos. Surge ali, sem ser possível identificar sua composição mais profunda, mal sendo possível sua especulação. Vemos apenas um relacionamento entre ambos. 

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